O jornalista francês Benoît Hervieu é professor da Sorbonne de Paris e foi responsável, durante anos, pela ONG Repórteres Sem Fronteiras na América Latina. Impactado com a sucessão de crises instaladas no Brasil, fez questão de contactar brasileiros para entender o que se passa no governo Dilma Rousseff, em detalhes. Na sua visão, a cobertura da mídia internacional sobre o País é superficial e termina por reproduzir visões caricaturadas do gigante tropical. “Em média, apenas 5% das matérias produzidas pelos jornais da Europa são dedicadas aos países latino-americanos. Quando querem retratar os problemas enfrentados pelo Brasil, hoje, fazem análises simplistas, pois não compreendem a complexidade do sistema político brasileiro, que tem suas particularidades. Então, sempre abordam a situação a partir de representações culturais tradicionais, afinal, o Brasil é o País do futebol, do samba, carnaval e corrupção”, explicou.
Para ele, o ex-presidente Lula conseguiu, ao longo de seus mandatos, conquistar a simpatia e o respeito das principais potências mundiais. Porém, a presidente Dilma não manteve o mesmo status. “Lula teve uma ascensão incrível, principalmente por conta de sua trajetória. É reconhecido mundialmente como um operário que chegou ao poder e fez grandes transformações. Ele entrou na dinâmica global com personalidade e carisma. Por isso, sua imagem ainda é preservada pela mídia internacional, apesar das recentes denúncias de corrupção. Porém, Dilma não conseguiu ter a mesma receptividade. Ela começou a ser mais conhecida em 2013, com as grandes manifestações no Brasil. Em seguida, voltou ao noticiário em razão das falhas na Copa do Mundo de 2014. Mais recentemente, está no centro de uma grave crise, correndo o risco de sofrer impeachment”, disse.
O acúmulo de citações negativas em revistas e jornais estrangeiros, segundo o jornalista, foi o suficiente para devolver, ao Brasil, a imagem de País subdesenvolvido. Porém, alguns periódicos foram capazes de analisar a situaçãode forma diferente, como é o caso do jornal francês Le Figaro. “Eles fizeram uma matéria alertando para a possibilidade de um ‘golpe frio’, que poderia estar sendo articulado pela oposição no Congresso. No entanto, os franceses não conseguem entender como isso funcionaria sem, por exemplo, a presença dos militares, pois a palavra ‘golpe’ os remete aos anos 1970, um tempo que ficou para trás. Mas isso pode ser perigoso. Em 2009, houve um golpe em Honduras, quando prenderam o presidente Manuel Zelaya. Isso aconteceu recentemente. Na própria universidade em que leciono, os alunos têm dificuldades para assimilar estas realidades”, colocou.
FONTE: FOLHAPE