Escrever sobre a persistência da violência contra mulheres no Brasil não foi difícil para a paulistana Ana Moioli, 18. Leitora voraz e autora de crônicas e de uma peça de teatro, ela vivenciou a discussão sobre preconceito e desigualdade de gêneros em um coletivo feminista formado na escola.
Questões de gênero também são frequentes desde 2011 no blog de Luana de Sena, 19. "Feminista que sou, tentei falar com a propriedade que os anos de discussões me deram", conta a jovem de Natal.
A familiaridade com o assunto ajudou. As duas estudantes ficaram entre os 104 candidatos nota mil na redação do último Enem, em 2015. A reportagem conversou com nove deles e enviou seus textos para análise de professores.
Como nos anos anteriores, o principal exame de seleção para as universidades públicas do país exigiu dos estudantes uma posição crítica sobre um problema social. Foram cerca de 5,6 milhões candidatos na edição passada.
"A informação é imprescindível", afirma Cristina Ferreira, professora de redação do Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo. "O aluno não pode sugerir uma lei que já exista ou uma ação que não tenha dado certo."
A importância do repertório também é ressaltada por Davi Fazzolari, professor do colégio Visconde de Porto Seguro. Para ele, o tema do ano passado exigiu um "olhar histórico" dos candidatos.
"Muitos se confundiram ao tentar discutir se existe ou não a violência contra a mulher. A questão era que a violência 'persiste', e o aluno tinha que responder por que", explica.
Nos textos campeões, não faltaram referências a ícones feministas, como a francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) e a inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797).
Fábio Lopes Júnior, 19, de Assu (RN), foi além do comum e ironizou uma letra de funk na redação "Dói, um tapinha dói". Filho de uma empregada doméstica e de um vendedor, ele diz que tentou "evitar rebuscamentos" no texto.
Já Raphael de Souza, 20, de Niterói (RJ), apostou nas leituras de filosofia e sociologia. "Sabia que a intertextualidade é uma competência valorizada na prova", diz o estudante, que conseguiu a sua segunda nota mil e passou em medicina na UFRJ.
Marcos Magri, professor da Adaptativa, afirma que essas referências são importantes para a nota dos estudantes que já escrevem bem. Antes disso, porém, é preciso dominar a estrutura do texto e apresentar informações coerentes com a proposta.
"O objetivo principal do Enem é ver se as pessoas conseguem refletir sobre suas realidades, e não se elas são grandes eruditos."
FolhadePE