A rua ideal e democrática é aquela onde todo mundo tem espaço. O pedestre conta com uma calçada em bom estado e espaçosa. O ciclista, com uma rota segregada para seu deslocamento. O restante da pista fica para os outros modais de transporte, de preferência, com prioridade ao público.
O que dizer, então, quando o lugar de um é invadido para atender interesses de outro? A cena é comum nas grandes cidades. Calçadas viram pontos de parada e ruas ficam quase sem área de circulação por conta de fileiras de carros em local indevido. No Recife, o estacionamento irregular é a segunda infração mais registrada, o que contraria a tendência nacional, que tem o uso do celular ao volante nessa posição.
Para se ter ideia, o número de veículos rebocados na capital pernambucana aumentou 130% de 2013 a 2015 em relação aos três anos anteriores. Dados que revelam uma dura missão pela frente: embora a punição aconteça, o grande desafio ainda é conscientizar os condutores.
Basta acompanhar uma fiscalização de rotina para se deparar com diversos casos de desrespeito à legislação e ao direito de outrem. Boa Viagem e Pina, na Zona Sul, contam com uma operação específica - a Bairro Legal - para inibir o estacionamento irregular. Ruas paralelas à praia e no entorno do Shopping Recife têm o problema em níveis críticos. Numa única calçada, sete carros parados.
Pior para o comerciante Edson Pereira, 64 anos, que ao longo das últimas duas décadas, desde que mora na região, viu o fluxo de automóveis aumentar, e o espaço de quem se locomove a pé, encolher. “A gente teve que se acostumar, porque nunca muda. A fiscalização vem, multa, mas as pessoas continuam parando na calçada. As crianças que vêm das escolas passam aqui e tem que ser no meio da rua”, reclama. Todos os veículos foram notificados, e alguns, rebocados.
Em outra rua, a Guilherme Pontes Sobrinho, também em Boa Viagem, mais irregularidades. O número de notificados chegou a oito, só que bem mais gente estava infringindo a lei. Quem pode, costuma correr para retirar o veículo. Quem não tem mais o que fazer, dá, quase sempre, o mesmo argumento: era uma parada rápida para resolver pendências ali perto. A falta de local para estacionar também aparece.
“A gente fica sem opção. Percorre quarteirões atrás de uma vaga e não consegue. Fazer o quê? Tem que parar em algum lugar”, contou uma pedagoga de 40 anos, amparando uma colega que, enquanto socorria o filho, teve o carro rebocado por estar estacionado em local indevido. A professora Aurenice Monteiro e a nutricionista Soraya Monteiro, mãe e filha e moradoras da região, resumem bem a discussão enquanto caminham. “No carro, é uma visão. A consciência muda quando se está a pé. O interesse particular não justifica ameaçar o de outro”, opina Soraya.
CONSCIÊNCIA
A presidente da Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU), Taciana Ferreira, concorda que esse é um ponto a ser trabalhado em campanhas educativas, inclusive nas que estão sendo preparadas para este ano, e diz que os números que põem o estacionamento irregular no topo do ranking de infrações mostram como a Prefeitura tem se preocupado com o tema. “Era uma das grandes reclamações que recebíamos.
Intensificamos as ações, com as operações Bairro Legal, Estacione Legal, e fiscalizações específicas em Nova Descoberta, no Córrego da Areia, no entorno de mercados. Queremos avançar mais para esses bairros. Identificamos os corredores mais problemáticos, destacamos equipes para esse trabalho e melhoramos a estrutura, ampliando a quantidade de guinchos. Tem havido um rigor maior”, afirma.
O presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Civis de Pernambuco, Stenio Cuentro, lembra que a questão também passa pela estrutura das cidades, muitas sem vagas de estacionamento suficientes para a demanda, embora ressalte que a ampliação dessa oferta não costuma ser uma prioridade em várias partes do mundo.
“No Recife, licencia-se a construção de um edifício de três quartos, para pessoas de classe média, sabendo que aquela família terá, ao menos, três carros, mas o prédio tem menos vagas de garagem. Vai ficar carro na rua, na calçada. Ainda há um descompasso”, declara. “O desafio é fazer levar a sério a fiscalização. Só com multa, o efeito pedagógico se perde um pouco, porque pagar um estacionamento pode sair mais caro. Quando há o reboque, que tem taxas e gera um transtorno maior, isso começa a mudar.”
FOLHA PE