Publicada em 14/03/2016 às 17h17.
Recifense, um dos que mais estaciona onde não deve
Infração de trânsito é a segunda mais cometida. Punição aumentou, mas falta conscientização.

A rua ideal e democrática é aque­­­la onde todo mundo tem espaço. O pedestre conta com uma calçada em bom estado e espaçosa. O ciclista, com uma rota segregada para seu deslo­­­ca­­­mento. O restante da pista fi­­­ca para os outros modais de trans­­porte, de preferência, com prioridade ao público.


O que dizer, então, quando o lugar de um é invadido para atender interesses de outro? A cena é co­­mum nas grandes cidades. Cal­­çadas viram pontos de parada e ruas ficam quase sem área de circulação por conta de fileiras de carros em local indevido. No Recife, o estacionamento irregular é a segunda infração mais registrada, o que contraria a tendência nacional, que tem o uso do celular ao volante nessa posição.


Para se ter ideia, o número de veículos rebocados na capital pernambucana aumentou 130% de 2013 a 2015 em relação aos três anos anteriores. Dados que revelam uma dura missão pela frente: embora a punição aconteça, o grande desafio ainda é conscientizar os condutores.


Basta acompanhar uma fiscalização de rotina para se deparar com diversos casos de des­­respeito à legislação e ao direito de outrem. Boa Viagem e Pina, na Zona Sul, contam com uma operação específica - a Bairro Legal - para inibir o esta­­cionamento irregular. Ruas pa­­ralelas à praia e no entorno do Shopping Recife têm o problema em níveis críticos. Numa única calçada, sete carros parados.


Pior para o comerciante Edson Pereira, 64 anos, que ao longo das últimas duas déca­­das, desde que mora na região, viu o fluxo de automóveis aumentar, e o espaço de quem se locomove a pé, encolher. “A gente teve que se acostumar, por­­que nunca muda. A fiscalização vem, multa, mas as pessoas continuam parando na cal­­­çada. As crianças que vêm das escolas passam aqui e tem que ser no meio da rua”, recla­­­ma. Todos os veículos foram notificados, e alguns, rebocados.


Em outra rua, a Guilherme Pontes Sobrinho, também em Boa Viagem, mais irregularidades. O número de notificados chegou a oito, só que bem mais gente estava infringindo a lei. Quem pode, costuma correr para retirar o veículo. Quem não tem mais o que fazer, dá, quase sempre, o mesmo argumento: era uma parada rápida para resolver pendências ali perto. A falta de local para estacionar tam­­­­­bém aparece.


“A gen­­­te fica sem opção. Percorre quarteirões atrás de uma vaga e não consegue. Fa­­­zer o quê? Tem que parar em al­­­gum lugar”, contou uma pedagoga de 40 anos, amparando uma colega que, enquanto socorria o filho, teve o carro rebocado por estar estacionado em local indevido. A professora Aurenice Monteiro e a nutricionista Soraya Monteiro, mãe e filha e moradoras da região, resumem bem a discussão enquanto caminham. “No carro, é uma visão. A consciência muda quando se está a pé. O interesse particular não justifica ameaçar o de outro”, opina Soraya.


CONSCIÊNCIA


A presidente da Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU), Taciana Ferreira, con­­­corda que esse é um ponto a ser trabalhado em campanhas educativas, inclusive nas que estão sendo preparadas para es­­­te ano, e diz que os números que põem o estacionamento irregular no topo do ranking de infrações mostram como a Prefeitura tem se preocupado com o tema. “Era uma das grandes reclamações que recebíamos.


Intensificamos as ações, com as operações Bairro Legal, Estacione Legal, e fiscalizações específicas em Nova Descoberta, no Córrego da Areia, no entorno de mercados. Queremos avan­­­­çar mais para esses bairros. Iden­­tificamos os corredores mais problemáticos, destacamos equi­­­pes para esse trabalho e melho­­­ramos a estrutura, ampliando a quantidade de guinchos. Tem havido um rigor maior”, afirma.


O presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Civis de Pernambuco, Stenio Cuentro, lembra que a questão também passa pela estrutura das cidades, muitas sem vagas de estacionamento suficientes para a demanda, embo­­­ra ressalte que a ampliação des­­­sa oferta não costuma ser uma prioridade em várias partes do mundo.


 

“No Recife, licencia-se a construção de um edifício de três quar­­tos, pa­­ra pessoas de classe média, saben­­do que aquela família terá, ao menos, três carros, mas o prédio tem menos vagas de ga­­­ragem. Vai ficar car­­­ro na rua, na calçada. Ainda há um descompasso”, de­­clara. “O de­­safio é fazer levar a sério a fiscalização. Só com mul­­­ta, o efeito pedagógico se perde um pou­­­co, porque pagar um estacionamento pode sair mais caro. Quando há o reboque, que tem taxas e gera um transtorno maior, isso começa a mudar.”

 

 

 

FOLHA PE

 

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