Publicada em 29/07/2025 às 08h46.
Cruz profanada: o que significa o ataque à única igreja católica de Gaza
Única paróquia católica de Gaza, local servia de refúgio a idosos, crianças e civis que não tinham para onde ir

Foto: Divulgação.         


 O ataque das forças israelenses ao único templo católico da Faixa de Gaza, a Igreja da Sagrada Família, deixou três mortos, 11 feridos e uma ferida que deve custar a cicatrizar-se. Em uma guerra, quando locais considerados sagrados são transformados em alvo, o simbolismo transcende as esferas da diplomacia e da humanidade.

 

As primeiras consequências foram vistas quase que imediatamente. Se o Papa Leão 14 estava medindo as palavras ao cobrar o fim do conflito entre Israel e Hamas, seus passos foram mais incisivos nos últimos dias. Na manhã do dia 18 ele telefonou para o patriarca latino de Jerusalém, o cardeal Pierbattista Pizzaballa — que, em seguida, entrou em Gaza para levar centenas de toneladas de ajuda humanitária.

 

Um dos feridos no ataque foi o pároco da igreja, o sacerdote argentino Gabriel Romanelli, que ficou conhecido principalmente porque, desde o início da guerra, recebia todas as noites uma ligação do Papa Francisco (1936-2025).

 

Sacerdote Gabriel Romanelli, com jovens de sua paróquia em Gaza muito antes dos ataques à região e à própria igreja (Foto: Reprodução/Vatican News)

 

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, buscou colocar panos quentes na história. No mesmo dia 18, entrou em contato com o papa Leão dizendo que o alvo foi atingido por engano. O líder da Igreja Católica, segundo informações do Vaticano, foi firme em sua posição e cobrou o fim da guerra em Gaza, expressando preocupação quanto à situação humanitária da Palestina. O papa também disse ser necessário respeitar os lugares de culto, independentemente da religião.

 

“O Santo Padre reiterou seu apelo por um novo impulso nas negociações, um cessar-fogo e o fim da guerra. Ele voltou a expressar sua preocupação com a trágica situação humanitária da população de Gaza, cujas crianças, idosos e doentes estão pagando um preço agonizante”, afirmou a Santa Sé.

 

Católicos são minoria na Palestina e essa única igreja em Gaza tem uma comunidade de cerca de 200 fiéis. No centro de Gaza, entre ruínas e silêncios, a pequena Igreja da Sagrada Família se erguia como último refúgio espiritual para uma comunidade cada vez mais esvaziada e encurralada pela guerra. Única paróquia católica da Faixa de Gaza, o templo era também refúgio: abrigava idosos, crianças, civis que não tinham para onde ir. Era um espaço de trégua — religioso, humanitário, simbólico. Até ser atingido pelo bombardeio israelense.

 

A simbologia desse ataque não pode ser subestimada. Na tradição católica, igrejas não são apenas construções; são locais sagrados, espaços de esperança, especialmente em contextos de guerra. Atacar uma igreja é mais do que destruir paredes: é violar uma promessa de proteção. É converter um santuário em alvo.

 

As faíscas desse ataque ainda repercutem não só no mundo católico, mas na opinião pública mundial — sobretudo a europeia. E, no entendimento de especialistas e pessoas ligadas ao Vaticano, podem indicar uma mudança de posicionamento de Leão 14 — depois de um início de pontificado mais cuidadoso com as palavras, ele pode agora sentir que é preciso ser mais firme em cobrar um cessar-fogo.

 

Um religioso próximo a Pizzaballa ouvido pela Agência Pública confirmou que essa expectativa está posta. E foi além. “Este acontecimento pode marcar a estreia de fato do novo papa nas discussões geopolíticas”, afirma ele. “Resta acompanhar as próximas declarações. ”

 

Para o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Leão 14 está diante de seu “primeiro grande teste”.


“Ainda estava naquela fase de namoro inicial [com o cargo]. Mas um ataque dessa natureza passa a exigir uma resposta, uma posição mais firme”, comenta. “O conflito deve marcar a entrada de Leão nos aspectos que envolvem a política mundial já que, enquanto Francisco se posicionava de maneira muito contundente, o novo papa parecia cauteloso. ”



FONTE: AGÊNCIA BRASIL.




 

 

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