Uma descoberta anunciada nesta sexta-feira (22) aumentou a preocupação da comunidade científica acerca da capacidade do zika de se espalhar. Pesquisadores encontraram quatro saguis e três macacos-prego infectados com o vírus no Ceará.
O achado foi o primeiro em primatas não humanos fora da África e indica que as espécies podem ser reservatórios do agente causador da doença, como ocorre com a febre amarela. Mais que isso: seria uma das explicações para a rapidez com que a doença se disseminou nas Américas, além de um novo desafio às autoridades sanitárias na luta para contê-la.
A constatação ocorreu por acaso, durante um estudo sobre a raiva em animais silvestres desenvolvido numa parceria entre a Universidade de São Paulo, o Instituto Pasteur e a Secretaria da Saúde do Ceará, por meio do Núcleo de Controle de Vetores (Nuvet). Os espécimes integram um grupo de 24 macacos submetidos a avaliações entre julho e novembro de 2015. Todos têm hábitos domésticos ou vivem próximos a aglomerados urbanos.
A detecção do vírus em sete desses primatas ocorreu por meio da técnica PCR. Após os exames, eles receberam microchips e voltaram à natureza. Alguns serão reavaliados a partir de maio, o que possibilitará entender como o vírus se comporta em seus organismos.

Por enquanto, os especialistas do grupo acreditam que a infecção acontece pelo fato de as células desses animais serem permissivas às ações do vírus, o que não acontece, por exemplo, com a dengue. Essa enfermidade, aliás, demorou muito mais tempo para atingir a amplitude que o zika agora tem. Nas Américas, ele já foi identificado em 35 países, o que poderia ser um indício de que há outros hospedeiros na cadeia da epidemia além dos humanos.
“É um achado novo, que indica que esses macacos podem estar se comportando com um possível reservatório do zika. O que chamou atenção é que o vírus que foi isolado no primata não humano tem 100% de compatibilidade com o encontrado em humanos”, detalha a veterinária Naylê Holanda, do Nuvet e coordenadora do projeto no Ceará, fazendo a ressalva de que as constatações ainda são preliminares.
Sobre a transmissão, uma possibilidade é a de que, por viverem próximos aos locais em que há notificações de zika e microcefalia, os macacos tenham sido picados por mosquitos Aedes aegypti com o vírus. A preocupação é com que o contrário passe a ocorrer: primatas infectados cheguem a localidades em que o zika ainda não está presente e, ao entrarem em contato com o inseto transmissor, espalhem a doença, o que dificultaria o controle.
A potencialidade e a abrangência desse risco ainda carecem de investigação. “Esse estudo vai contribuir para entender a dinâmica da doença e para apontar caminhos às ações de vigilância epidemiológica”, reforça Holanda.
FolhaPE