Exceto os programas infantis, no começo dos anos 90 eu tenho vagas lembranças do que se passava na TV. De política, quase nada. O movimento dos Caras Pintadas era quase despercebido diante de desenhos como He-Man ou Caverna de Dragão. Os discursos fervorosos, e quase unânimes na tribuna da Câmara, no dia da votação do processo do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo, são poucos remetidos a minha memória.
As poucas recordações sobre a política são dos programas semanais que mostravam a rotina de Collor, principalmente quando era retratado o lazer do ex-líder da nação andando de Jet Sky ou em outras diversões. A memória ficou restrita a isso. O tempo acabou interferindo nas lembranças da infância, e fiquei sustentado pelos discursos vigentes da época.
Diante disso, questiono o quanto as crianças, e até, porque não, os adultos vão lembrar o dia 17 de abril de 2016, data da votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Um processo que, diferente do de Collor, é bastante questionado por vários grupos de movimentos sociais.
O que será determinado pelo tempo? O que vai ser silenciado pela memória? De uma mulher que lutou contra a Ditadura Militar ou de uma chamada “terrorista que sequestrava pessoas”? Da primeira presidente mulher no Brasil ou de um chefe de Estado que pode ser deposta acusada e culpada, por muitos, como principal defensora de corruptos?
Para o historiador francês Jacques Le Goff, responsável pela renovação da pesquisa sobre mentalidade e antropologia no século XX, os indivíduos que dominam as sociedades sempre estão preocupados em serem os senhores da memória. Os mecanismos de manipulação da memória coletiva revelam isso.
As instituições, os periódicos, os empresários, os atores políticos, deturpam os acontecimentos. Elas são responsáveis por tornar heróis ou bandidos quem quer que seja.
A história comprova que a memória é corrompida. O que alguém cometeu ontem pode ser (e quase sempre) é esquecido rapidamente – olha aí Collor como senador para provar.
É como o historiador Pierre Nora salientou, a história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais.
E quando Dilma não existir mais, o que vamos lembrar dela? E o que será que os senhores da memória vão mostrar da sua história? Afinal, o passado vive de fatos provisórios, que sempre são apagados e reconstruídos.
E o que vamos apagar de Dilma? O que vai sobrar da sua história?
Folha Pe