
Foto: Divulgação.
O grupo criminoso, investigado
por sonegação fiscal durante diligências da Operação Cortina de Fumaça, chegou
a utilizar 36 empresas ao longo de dez anos. O grupo concentrava suas ações no
Ceasa do Recife e em empresas de Caruaru, no Agreste de Pernambuco.
De acordo com o diretor-geral
de Operações Estratégicas da Secretaria da Fazenda de Pernambuco (Sefaz-PE),
Antônio Emery, o grupo utilizava um sistema contínuo de abertura e descarte de
empresas para acumular dívidas tributárias e manter o esquema funcionando.
“Quando uma empresa acumulava
uma carga tributária elevada e se tornava inviável, eles abandonavam aquela
pessoa jurídica e criavam outra em nome de novos laranjas. Era um modelo
contínuo de sucessão empresarial fraudulenta”, explicou.
Segundo a investigação,
funcionários, colaboradores do comércio e até integrantes da própria família
eram utilizados como laranjas das empresas. Um dos exemplos citados pelos
investigadores envolve um homem que trabalhava como garçom e teria sido
utilizado como proprietário formal de uma empresa que acumulou dívida superior
a R$ 3 milhões.
“Essas pessoas tinham ciência
da fraude. Não há, até o momento, indícios de utilização indevida de dados sem
consentimento”, ressaltou o delegado Breno Varejão, titular do Departamento de
Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária (Deccot). As empresas laranjas
também eram utilizadas para emissão de notas fiscais sem lastro comercial e
geração de créditos tributários fictícios.
Segundo as investigações, o
esquema de fraude fiscal estruturada também alcançava outras cidades
pernambucanas, como Camaragibe e Bezerros, através de empresas e pessoas
ligadas ao grupo investigado.
Prejuízos ultrapassam os R$
130 milhões
De acordo com Ministério
Público de Pernambuco (MPPE), o grupo é investigado por sonegação fiscal,
lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, falsidade documental e ocultação
patrimonial em um esquema que teria causado prejuízo superior a R$ 132 milhões
aos cofres públicos estaduais.
Segundo os investigadores, o
caso é tratado como uma típica investigação de fraude fiscal estruturada,
modalidade em que há atuação organizada e permanente para lesar o Fisco em
larga escala.
Durante coletiva de imprensa,
nesta quinta-feira (7), representantes dos órgãos envolvidos afirmaram que o
atual modelo de combate ao crime organizado passa necessariamente pela
investigação financeira e patrimonial para descapitalizar organizações
criminosas.
“A gente vive uma fase de
combate ao crime organizado em que a investigação financeira e a
descapitalização das organizações criminosas têm protagonismo. Muitas vezes, a
sanção patrimonial tem uma eficiência muito maior”, afirmou o delegado Breno
Varejão.
A investigação mira empresas
do setor de distribuição de alimentos, especialmente do ramo atacadista e
hortifruti. Durante a fase ostensiva da operação, dos 18 mandados de busca e
apreensão expedidos pela Justiça, apenas 17 foram cumpridos, sendo 14 em
endereços ligados a pessoas físicas e quatro em empresas investigadas.
Os alvos incluíam empresários
apontados como beneficiários do esquema, contadores suspeitos de
operacionalizar as fraudes fiscais e pessoas utilizadas como “laranjas” na abertura
das empresas.
Um dos mandados não foi
cumprido porque o investigado não foi localizado no endereço informado.
Além das buscas, a Justiça
também autorizou uma série de medidas cautelares para tentar desarticular a
estrutura financeira e impedir a continuidade das atividades do grupo.
Entre elas estão o bloqueio
patrimonial de até R$ 26 milhões, abrangendo contas bancárias, imóveis e
veículos, incluindo carros de luxo que juntos ultrapassam o valor de 1 milhão.
Também foram apreendidos
celulares, computadores, CPUs, documentos fiscais, materiais contábeis e
equipamentos eletrônicos que passarão por perícia e análise investigativa.
Segundo Breno Varejão, o grupo
era dividido em três núcleos: o núcleo dos beneficiários, formado pelos
empresários apontados como líderes do esquema; o núcleo operacional contábil; e
o núcleo dos chamados “laranjas”.
“Estamos falando de fraude
fiscal estruturada, praticada por um grupo que tinha capacidade de lesar de
maneira expressiva os cofres públicos. É um modelo criminoso que envolve
investigação financeira, ocultação patrimonial, lavagem de dinheiro e falsidade
ideológica”, afirmou.
Quase 40 empresas envolvidas
As investigações apontam que
os verdadeiros gestores evitavam aparecer oficialmente nos contratos sociais
para escapar de responsabilizações patrimoniais e judiciais.
“Eles tomavam todas as
decisões estratégicas e operacionais das empresas, decidiam fornecedores,
aquisição de mercadorias e gestão comercial, mas não figuravam oficialmente nos
contratos sociais”, detalhou o delegado.
Ao longo das investigações,
foram identificadas cerca de 36 empresas ligadas ao esquema.
Parte delas já foi encerrada,
enquanto outras seguem em atividade. Seis empresas foram consideradas “frias”
ou inaptas pela fiscalização da Fazenda Estadual, enquanto outras seguem sob
análise documental.
A investigação também revelou
que empresas com movimentações milionárias estavam registradas em nome de
pessoas sem qualquer compatibilidade financeira, incluindo beneficiários de
programas sociais federais, como Bolsa Família e auxílio emergencial.
“Tinham empresas milionárias
em nome de pessoas beneficiárias de programas assistenciais. Isso demonstra o
nível de ocultação patrimonial utilizado pelo grupo”, afirmou Breno Varejão.
Segundo os investigadores,
além das dívidas tributárias milionárias, os integrantes do grupo também
acumulavam dívidas privadas e utilizavam mecanismos de ocultação patrimonial
para escapar tanto do Fisco quanto de cobranças cíveis.
Durante a operação, uma
empresa em Caruaru foi interditada após fiscais encontrarem mercadorias sem
nota fiscal. A carga foi avaliada em cerca de R$ 18 mil e o estabelecimento
acabou liberado após pagamento do imposto e multa.
Empresas “descartáveis”
As investigações apontam que o
grupo atuava, há pelo menos, uma década. Segundo a Secretaria da Fazenda,
existem registros de movimentações fiscais das empresas desde 2009.
O prejuízo superior a R$ 132 milhões, segundo os investigadores, corresponde ao somatório de diversas autuações fiscais e comunicações de crimes tributários acumuladas ao longo dos anos. Parte dessas dívidas está ligada inclusive a empresas já encerradas.
A investigação identificou ainda o uso irregular do CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) de “armazém geral”, atividade que possui benefício tributário relacionado ao recolhimento do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) nas entradas de mercadorias vindas de outros estados.
“O armazém geral existe para armazenar mercadorias. O problema é que eles utilizavam esse CNAE para comercializar diretamente os produtos, descaracterizando completamente o benefício tributário”, afirmou Antônio Emery.
Segundo a Sefaz, no regime regular, quando uma mercadoria entra em Pernambuco vinda de outro estado, há cobrança antecipada do ICMS, conhecida tecnicamente como “00058-2”.
O grupo utilizava o CNAE de armazém justamente para evitar esse recolhimento.
“O benefício existia porque, em tese, a mercadoria apenas ficaria armazenada. Mas eles comercializavam diretamente os produtos. Quando a Fazenda identificava isso, alterava o CNAE e cobrava todo o imposto retroativo”, explicou Antônio Emery.
Segundo os investigadores, o esquema também envolvia circulação de mercadorias sem documentação fiscal compatível, emissão de notas frias e uso de empresas que existiam apenas formalmente, funcionando em salas vazias ou apenas no papel.
Os contadores investigados tinham papel estratégico na operacionalização das fraudes.
Três profissionais foram formalmente investigados e sofreram medidas cautelares determinadas pela Justiça, incluindo suspensão temporária da atividade contábil, proibição de atuação junto à Jucepe, Receita Federal e Sefaz, além de monitoramento eletrônico. Ao todo, seis investigados passaram a utilizar tornozeleira eletrônica.
Também foram determinadas medidas cautelares como retenção de passaportes, proibição de abrir empresas, impedimento de administrar pessoas jurídicas, suspensão do exercício da atividade empresarial, proibição de contato entre os investigados e impedimento de frequentar empresas ligadas ao esquema.
Próxima fase
Após a fase ostensiva, o CIRA iniciou a análise dos materiais apreendidos durante a operação.
Serão examinados dados fiscais, bancários, telemáticos e eletrônicos recolhidos nas buscas, incluindo celulares, computadores, documentos contábeis e equipamentos digitais.
A expectativa é aprofundar as investigações sobre lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial, utilização de empresas de fachada e possível participação de novos envolvidos.
Segundo a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), o próximo passo será utilizar judicialmente as provas produzidas para ampliar a recuperação dos ativos desviados.
Conforme a força-tarefa, os bens sequestrados poderão futuramente ser levados a leilão judicial para recuperação de ativos destinados ao Estado e reinvestimento em políticas públicas.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.