Publicada em 01/04/2026 às 11h01.
Como imagem de Medusa resultou na condenação de padrasto que estuprou criança no Agreste
Punida após ter sido vítima de estupro, segundo contos gregos, a figura mitológica tem sido usada como símbolo de sobreviventes de violência sexual.

Foto: Divulgação.   


 Um homem foi condenado a mais de 25 anos de prisão por estupro de vulnerável em Vertentes, no Agreste de Pernambuco. Os crimes foram descobertos após a vítima, enteada do acusado, publicar nas redes sociais uma imagem da figura mitológica Medusa, considerada símbolo de sobreviventes de violência sexual.

 

A denúncia do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) diz que a vítima tinha 7 anos quando começaram os abusos, que ocorreram entre 2018 e 2022. Os crimes eram cometidos enquanto a mãe da criança dormia ou se ausentava da casa. O padrasto teria ameaçado a menina a menina e a família caso ela revelasse os abusos.

 

Segundo o MPPE, os fatos foram descobertos em 2024 após a vítima, já adolescente, postar uma imagem da Medusa no Instagram. A ação destaca que a Medusa é um símbolo associado a sobreviventes de violência sexual, o que gerou questionamentos da tia da jovem.

 

Em interrogatório, o homem negou a autoria dos crimes. Ele atribuiu a denúncia a uma suposta inimizade com a tia da jovem.

 

A defesa também chegou a pedir exame de insanidade mental na vítima, afirmando que ela joga o game de tiro Free Fire e apresentaria ideação suicida e episódios de automutilação.

 

"A literatura médica e psicológica aponta que tais comportamentos são sintomas clássicos e esperados em crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual prolongado", rebate o juiz da Vara Única de Vertentes.

 

Segundo o magistrado, a materialidade do delito de estupro de vulnerável está sustentada em boletim de ocorrência, relatórios do conselho tutelar e na prova oral colhida.

 

"A vítima, ouvida por meio de Depoimento Especial, apresentou relato firme, rico em detalhes e desprovido de contradições substanciais", diz na sentença, publicada na última quinta-feira (26).

 

"O silêncio da vítima por anos é plenamente justificável pelo terror incutido pelo agressor, figura de autoridade no lar", acrescenta o juiz.

 

"A revelação do crime ocorreu de forma espontânea e indireta, por meio da postagem da tatuagem da 'Medusa' — um símbolo contemporâneo amplamente conhecido nas redes sociais como representação de sobreviventes de violência sexual", continua o magistrado. "Esse grito de socorro silencioso foi percebido pela tia, que, ao questionar a sobrinha, obteve a confissão do abuso".

 

Os depoimentos da tia, da mãe e do pai biológico foram considerados harmônicos. As conselheiras tutelares ouvidas também confirmaram o estado de abalo da menor e a espontaneidade do relato.

 

Já as testemunhas de defesa afirmaram que o acusado tinha bom comportamento social e que nunca viram nada de estranho.

 

"Ora, o crime de estupro de vulnerável no âmbito intrafamiliar é marcado justamente pela dissimulação do agressor, que mantém uma fachada de normalidade perante terceiros enquanto abusa da vítima na intimidade do lar", avalia o magistrado.

 

O juiz fixou a pena em 25 anos, 10 meses e 16 dias. O acusado poderá responder ao processo em liberdade. Ele também deverá indenizar a vítima em R$ 10 mil.

 

Medusa

 

Um dos contos famosos sobre a górgona na mitologia grega conta que Poseidon, enfurecido com Atena, abusou sexualmente de Medusa no templo da deusa. Atena castiga Medusa pelo ocorrido, transformando seu cabelo em cobras e lhe dando um olhar que transformava as pessoas em pedra.


Um artigo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) aponta que o episódio mitológico evidencia elementos da "cultura do estupro", marcada pela inversão da culpa, com Medusa sendo punida por ter sido abusada.



FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.




         

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